A imagem do advogado que passa o dia inteiro em tribunais fazendo discursos dramáticos é ficção. A rotina real da profissão envolve muito mais leitura, redação, análise de documentos e comunicação com clientes do que cenas de filme. Entender o que um advogado faz no dia a dia ajuda tanto quem pensa em seguir a carreira quanto quem precisa contratar um profissional e quer saber pelo que está pagando.
A manhã: prazos, e-mails e processos
O dia de trabalho de muitos advogados começa com a verificação de intimações e publicações nos sistemas de processo eletrônico. No PJe, e-SAJ, Projudi e outros sistemas, o advogado acompanha os andamentos processuais e identifica prazos que estão correndo.
O controle de prazos é uma das atividades mais críticas. Perder um prazo processual pode significar a preclusão de um direito do cliente — ou seja, a perda definitiva da oportunidade de se manifestar nos autos. Por isso, advogados dedicam atenção especial a essa tarefa logo no início do expediente, muitas vezes com o apoio de softwares jurídicos que emitem alertas automáticos.
Em seguida, vem a leitura e resposta de e-mails e mensagens de clientes. A comunicação com o cliente é parte significativa da rotina — esclarecer dúvidas sobre o andamento do caso, solicitar documentos, explicar decisões judiciais e alinhar estratégias.
Redação de peças processuais
A maior parte do tempo de um advogado litigante é dedicada à redação de peças processuais. Petições iniciais, contestações, recursos, memoriais, pareceres — cada documento exige pesquisa jurídica, análise dos fatos, construção de argumentos e revisão cuidadosa.
Uma petição inicial bem elaborada pode levar de algumas horas a vários dias de trabalho, dependendo da complexidade do caso. O processo inclui:
- Análise dos fatos: revisão detalhada dos documentos e relatos do cliente para construir a narrativa do caso.
- Pesquisa jurídica: busca por legislação aplicável, jurisprudência relevante e doutrina que fundamentem os argumentos.
- Redação: construção do texto com clareza, lógica e persuasão, respeitando os requisitos formais de cada tipo de peça.
- Revisão: conferência de dados, referências legais, nomes das partes e cálculos, quando aplicável.
Atendimento ao cliente
O atendimento ao cliente ocupa uma parcela considerável da agenda. Reuniões presenciais ou por videoconferência para discutir novos casos, acompanhar processos em andamento ou orientar sobre questões jurídicas preventivas fazem parte do cotidiano.
A primeira consulta com um novo cliente é um momento especialmente importante. O advogado precisa ouvir atentamente o relato, fazer perguntas estratégicas, identificar os fatos juridicamente relevantes e avaliar a viabilidade do caso. É nesse momento que se define se há fundamento para uma ação judicial, se a melhor estratégia é uma negociação extrajudicial ou se o caso não tem sustentação legal.
A habilidade de comunicar informações jurídicas complexas em linguagem acessível é essencial. O cliente não precisa entender o artigo específico da lei — precisa entender o que aquilo significa para a vida dele.
Audiências e diligências
Ao contrário do que se imagina, audiências não ocupam a maior parte do tempo do advogado. Dependendo da área de atuação, um advogado pode ter de duas a cinco audiências por semana — ou até menos. No entanto, a preparação para cada audiência demanda tempo significativo.
Antes de uma audiência de instrução, por exemplo, o advogado revisa todo o processo, prepara perguntas para testemunhas, organiza documentos e define a estratégia de atuação. A audiência em si pode durar de trinta minutos a várias horas, mas a preparação pode consumir um dia inteiro.
Com a consolidação das audiências telepresenciais — realizadas por videoconferência —, o tempo de deslocamento até os fóruns diminuiu significativamente. Isso mudou a rotina de muitos advogados, que agora participam de audiências em diferentes comarcas sem sair do escritório.
Estudo e atualização constante
O Direito muda constantemente. Novas leis são aprovadas, tribunais mudam entendimentos jurisprudenciais, e o STF e o STJ publicam decisões que alteram a interpretação de normas existentes. O advogado que não se atualiza fica defasado rapidamente.
A rotina de estudo inclui a leitura de informativos de jurisprudência dos tribunais superiores, acompanhamento de alterações legislativas, participação em cursos de atualização e leitura de artigos e livros jurídicos. Muitos advogados dedicam pelo menos uma hora por dia a essa atividade.
Atividades administrativas
O advogado autônomo ou sócio de escritório também lida com tarefas administrativas que nada têm a ver com Direito, mas são essenciais para o funcionamento do negócio:
- Gestão financeira: emissão de boletos, controle de recebimentos, pagamento de despesas operacionais e planejamento tributário.
- Marketing: produção de conteúdo para redes sociais e blog, resposta a comentários e mensagens, e manutenção do site.
- Gestão de equipe: em escritórios com funcionários, supervisão de estagiários, delegação de tarefas e reuniões de alinhamento.
- Desenvolvimento de negócios: networking, participação em eventos, construção de parcerias e prospecção de novos clientes.
Variações por área de atuação
A rotina varia consideravelmente conforme a área de atuação. Um advogado trabalhista que atende empregados passa boa parte do tempo em audiências nos Tribunais do Trabalho e calculando verbas rescisórias. Um advogado tributarista pode dedicar semanas inteiras à análise de legislação fiscal e elaboração de pareceres consultivos, sem pisar em um tribunal.
Um criminalista alterna entre visitas a clientes presos, audiências de custódia, júris populares e redação de habeas corpus. Um advogado empresarial pode passar meses negociando contratos complexos e realizando due diligence em operações societárias.
Essa diversidade de rotinas é uma das características mais marcantes da advocacia. Não existe um único "dia a dia do advogado" — existem tantas rotinas quanto áreas de atuação e perfis de clientes.
Os desafios silenciosos
Aspectos da rotina que raramente são mencionados incluem a pressão emocional de lidar com casos que afetam profundamente a vida das pessoas, a ansiedade com prazos apertados, a frustração com a lentidão do Judiciário e o desafio de manter o equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
A saúde mental do advogado tem ganhado atenção nos últimos anos, com pesquisas indicando taxas elevadas de ansiedade, burnout e depressão na profissão. Reconhecer esses desafios é parte de uma visão honesta sobre o que significa ser advogado no dia a dia.
A advocacia é uma profissão intelectualmente estimulante e socialmente relevante, mas exige dedicação intensa, atualização constante e uma capacidade quase artesanal de traduzir problemas humanos em soluções jurídicas. Quem entende essa realidade está mais preparado para exercer — ou contratar — a profissão com expectativas alinhadas.



